Corra, Maria, Corra!


Eu tô cansada, viu? Essa vida exige muito da gente. Estudo, trabalho, socializar, cuidar da cabeça, do físico, da alma. Corre pra lá e pra cá, paga conta ali, o "freela" pra entregar aqui, os milhões de textos do mestrado, tirar um tempo pra fazer uma máscara facial porque minha cara tá toda ressecada, dormir pelo menos oito horas por dia, dar atenção aos colegas, sair, conhecer gente, foder, porque ninguém é de ferro, enfim... como é que o corpo aguenta tanta demanda?


Confesso que eu estou esgotada, com duas bolsas de olheiras gigantes no rosto e dores em músculos e ossos que eu nem sabia que eu tinha. E olha que eu acabei de voltar de férias, só tem uma semana que eu voltei pra minha rotina certinha, com os compromissos todos e ainda capengando, porque a diferença de fuso Brasil-Portugal ainda me pega. O mundo exige muito da gente, a gente exige muito da gente, eu cresci ouvindo que eu seria muito bem-sucedida porque eu era uma criança inteligente e tenho alguma facilidade na argumentação. Como se só o que bastasse pra se dar bem no mundo contemporâneo fosse isso, a inteligência, como se isso fosse me colocar num pedestal e me assegurar uma profissão e salário acima da média. Bom, eu tenho uma notícia triste: isso é uma piada! Tenho 26 anos, tô no meio do mestrado “no estrangeiro”, estudo que nem uma condenada, trabalho ali e aqui, e no final das contas, as minhas despesas saem da conta bancária da minha avó porque não tá dando.


Eu olho para o meu ciclo de pessoas, pessoas novas ainda, entre os 25 e os 35, e vejo um esgotamento coletivo. É complicado, é confuso lidar com essa velocidade. Quanto mais eu envelheço, mais a lista de responsabilidades aumenta e com isso, meu tempo diminui. Eu conto nos dedos os dias em que eu tenho a tranquilidade de parar, tomar um chá e esperar o sol cair sem pensar no tanto de coisa que eu tenho pra fazer no dia seguinte. É sábado (o dia em que eu escrevo, talvez não o dia em que você me lê) e eu tô sem coragem nenhuma de sair pra me divertir, porque diante de todas as doideiras do dia-a-dia, ou eu durmo pra me recuperar e começar bem a semana, ou eu saio pra rir e relaxar um pouco. Olha, que cruel é ter que escolher entre o descanso e uma cerveja com os amigos, porque não dá pra ter plenamente os dois.


Eu confesso que um dos grande motivos pelos quais eu escolhi morar em Porto foi a tranquilidade da cidade, bem menos agitada do que o Rio de Janeiro cosmopolita, mas pra além de toda a esquizofrenia das agendas, a internet não ajuda. É comum que “zapeando” a timeline do Instagram ou facebook, eu me depare com pessoas extremamente felizes, empregadas e com a vida ganha, pessoas mais novas do que eu, pessoas que tiveram menos oportunidades do que eu, e as cobranças dentro da minha cabeça só aumentam, porque aos 26, eu deveria estar pelo menos encaminhada. Ok, eu estou pelo menos encaminhada, mas tem dias que eu sinto que não estou fazendo nada certo, que sou eu que não consigo me planejar, que eu não consigo manejar tudo o que eu tenho pra fazer e que 24 horas são mais do que suficientes.


É, amigos, minha cabeça tá em pane e julgo que isso seja comum na minha geração. E se fosse só comigo, eu estaria mais tranquila, porque bom... o mal de uma só pessoa há de ter cura, mas olho para os lados e vejo pessoas deprimidas, pessoas com crise de estresse, distúrbios alimentares, pessoas que tinham tudo para serem pelo menos saudáveis, sabe? É frustrante perceber que nós mesmos criamos ambientes hostis onde não se consegue mais viver em paz.


Eu tenho uma amiga que largou tudo e mudou pra Bahia, passa mais da metade do dia na praia e trabalha em um restaurante à beira do mar. Encontrei ela nessas férias cariocas: tá mais bonita, queimada de praia, aguentou o carnaval inteiro sem reclamar e o dinheiro que tinha, dava pra viver feliz. Me pergunto se essa não é a saída, me mudar pra uma vila e viver daquilo que a terra dá. Eu vivo dizendo que mulher de pescador é quem conhece a felicidade de verdade, porque só pensa em como/quando vai limpar o peixe. Tá difícil nesse mundo globalizado, tá corrido, por isso mesmo vou finalizando o desabafo e enquanto não encontro uma maneira de respirar sem ajuda de aparelhos, pelo menos aqui, tenho a liberdade de falar o que eu quiser – mesmo que sejam essas reclamações e que ainda elas tenham prazo de entrega.


Maria Mangeth




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