Sobre meninos e meninas

Atualizado: 28 de Jan de 2019



A questão de gênero para mim sempre foi um problema … por que brinquedo de menina? Cor de menino? Até pelo menos 9 anos de idade eu queria ser menino! Nada a ver com sexo, é claro, mas achava o mundo masculino encantador, as brincadeiras eram mais divertidas e a cor azul era a minha favorita. Eu não conseguia entender porque as meninas não podiam jogar futebol, se aos sete anos eu já era a goleira do time do prédio, sem falar em soltar pipa – a sensação de aventura e de vitória que eu sentia era a melhor coisa do mundo - sair correndo para ver a pipa subir e ganhar o céu.  E o cerol? Você podia se cortar na hora de moer a lâmpada ou na hora de passar a cola com vidro na linha. Que excitante era poder conhecer o mundo real... era demais! 


Outra coisa que colaborava para o meu encantamento com o universo masculino era que meu pai adorava presentear eu e minha irmã com os chamados “brinquedos de menino”. Era o máximo! Cada brinquedo mais divertido que o outro. Nós tínhamos um forte apache completo, muitos Legos, arco e flecha, carrinhos, quebra-cabeças... mas o melhor era o autorama pista 8 enorme! Cada um na família tinha o seu carro cheio de decalques. Essa era a nossa brincadeira familiar de fins de semana, com brinquedos chamados de meninos. E se você reparar propõe brincadeiras coletivas... tenho boas lembranças do meu pai brincando conosco, da farra que era. 


Apesar de ter uma vasta coleção de bonecas, as brincadeiras chamadas de meninas, me pareciam uma escola para donas de casas modernas, onde brincávamos de reproduzir o dia a dia do funcionamento da casa. Ficávamos sentadas na escada e dividíamos os degraus onde eram os  cômodos da casa.  A cozinha para mim era o melhor da brincadeira, funcionava com tocos de velas e com os mantimentos que trazíamos: óleo, arroz, feijão... existia um marido de faz de conta e a brincadeira começava com o marido que saía para trabalhar e nós nos despedíamos com um beijo, às vezes o beijo era na própria mão, às vezes na pilastra da garagem, o mais importante era ser longo e sexy com um leve som tipo “hum…hum”. E assim voltávamos correndo para a casa, porque tínhamos muito a fazer: cuidar do bebê, cozinhar e depois ir ao salão para cuidarmos da nossa beleza, unhas, cabelos, maquiagem e assim ficaríamos lindas para recebermos, ao fim do dia, o marido que voltava para casa e lá nos encontraria para outro beijo.


O sonho de achar um grande amor e construir uma família era a base das brincadeiras de meninas. Eu até brincava, mas achava muito chata, não acontecia nada de verdade, tudo sempre de faz de conta, um mundo de sonhos, lugar de príncipes e princesas no qual um dia chegaria o seu príncipe e você teria que estar preparada para ele. Enquanto isso os meninos brincavam com emoções de verdade, corriam atrás da bola, competiam com carrinhos de autorama, podiam viver as brincadeiras e se divertir independentes e livres.  As meninas imaginavam tudo: o marido, o filho, o beijo... eu preferia a potência do universo masculino.


As meninas são treinadas para serem boas mães e esposas, mas ninguém treina meninos para serem bons pais e bons maridos.  A sociedade estabeleceu um comportamento para ser seguido, que aos poucos vem mudando e, apesar dos pequenos retrocessos, esse é um caminho sem volta, o mundo precisa de outros homens e outras mulheres. Não vejo hoje ninguém dar uma pistola d’água para uma menina ou um carrinho de bebê para um menino, e sem querer criar polêmica, não consigo entender porque não podemos ter uma sociedade livre da doutrina asfixiante de brinquedo e cor de roupa para definir gênero, sem falar nos hábitos de higiene e na ética moral, ensinadas de maneira diferente para meninos e meninas. Essa limitação atrapalha a nossa vida no mundo que temos hoje para viver.


Meu filho, que hoje tem 15 anos, quando era pequeno passeava de carrinho no Jardim Botânico com o pai, com isso toda vez que ele entrava na loja de brinquedos corria para o carrinho de boneca para imitar o pai levando seu filhote para passear. O que hoje me causa surpresa, é que existem correntes de pensamentos que acham que um menino que brinca de boneca pode "virar gay". Eu acho isso de uma simplicidade incrível, mas é isso que vivemos hoje, o século do medo, temos medo de tudo, quase como um véu que vem cobrindo o nosso dia a dia, o medo ganha espaço e envolve tudo de tal maneira que temos medo até de nós mesmos, de confrontarmos e convivermos com quem realmente somos.


A vontade de ser menino durou até a puberdade, quando nasceram os meus seios. No princípio eu odiei, tive que sair do time dos meninos, eu tinha medo que a bola batesse nos meus seios pequeninos. É claro que ao longo da história do mundo meninas sofrem mais do que meninos, é incomparável a dificuldade que passamos ao longo dos séculos para poder participar do mundo, não podíamos ler, escrever, trabalhar, se banhar no mar, votar… mas acredito que apesar de lentas, as mudanças são reais e estão transformando o mundo que vivemos, e com certeza esse equilíbrio na gestão do mundo vai fazer bem a todos nós.



Carla Camurati


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