Parte 3 – Lala e sua família de origem


– Meu pai e minha mãe tiveram muitos filhos, meu pai queria um filho homem de qualquer jeito, então minha mãe, na oitava menina, tomou veneno. Ela não aguentava mais. Meu pai, fez ela comer cocô de cachorro para salvá-la, ela vomitou, porque aqui é assim, se você tenta se matar o hospital não te atende, você morre. Então meu pai fez o que se faz na vila, dar cocô para você poder vomitar. Depois disso, ela teve um menino, mas é um menino perdido, passa o dia jogando cartas, é viciado. Minha mãe diz: “tá vendo, você queria tanto um menino, olha aí! As minhas oito meninas estão todas trabalhando e os seus meninos não”. Ela ainda teve mais meninos.

⁃ Ser mulher por aqui não me parece fácil.

Mas, Lala me diz:

⁃ Difícil mesmo é ter filho homem. Por aqui é a família do filho homem que tem que dar a terra para receber a noiva, por isso não vou tentar ter menina, não tenho mais terra para dar além dos meus dois primeiros meninos. A gente mora em casa de madeira, ainda nem tem teto, as mulheres carregam o filho nas costas enquanto trabalham até os oito meses, depois eles ficam com a sogra.

O que vejo no bebê que nos acompanha o dia inteiro é um bebê feliz, ri com facilidade, não chora, às vezes reclama de algo que é rapidamente solucionado com palavras ou peito. Olhando para ele, pergunto:

⁃ Por que dois filhos ? E esse aqui? Não vai ter terra?

Ela sorri e completa:

– Esse aqui (e aponta para o seu bebê fofo agarrado nela) pelo menos não vai se casar, é que o filho mais novo não casa. Ele fica em casa para cuidar dos pais quando ficarem velhos.

E Lala respira aliviada.


Paula Dutra

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