Eles & Elas

A aparência tinha muito a dizer sobre a sociedade nos tempos do Império. O homem tentava fazer da mulher uma criatura tão diferente dele, quanto possível. Ele, o sexo forte, ela o fraco; ele o sexo nobre, ela, o belo.  O culto pela mulher frágil, que se reflete nesta etiqueta e na literatura e também no erotismo de músicas açucaradas, de pinturas românticas; esse culto pela mulher é, segundo Gilberto Freyre, um culto narcisista de homem patriarcal, de sexo dominante que se serve do oprimido – dos pés, das mãos, das tranças, do pescoço, das ancas, das coxas, dos seios como de alguma coisa quente e doce que lhe amacie, excite e aumente a voluptuosidade e o gozo. Nesse culto, o homem aprecia a fragilidade feminina para sentir-se mais forte, mais dominador.

Todo o jogo de aparências colaborava para acentuar a diferença: a mulher tinha que ser dona de pés minúsculos. Seu cabelo tinha que ser longo e abundante preso em penteados elaboradíssimos para fazer frente a bigodes e barbas igualmente hirsutos. Homem sem barba era maricas! A cintura feminina era esmagada ou triturada por poderosos espartilhos, acentuando os seios aprisionados nos decotes – o peito de pomba - e o traseiro, aumentado graças às anquinhas. Tal armadura era responsável, segundo os médicos mais esclarecidos por problemas respiratórios e hemoptises, ajudando a desenhar a figura da heroína romântica, “a pálida virgem dos sonhos do poeta”, doente do pulmão. A complicação das roupas tinha um efeito perverso: ela suscitava um erotismo difuso que se fixava no couro das botinas, no vislumbre de uma panturrilha, num colo disfarçado sob rendas.

Partes do corpo, sexualmente atrativas, designavam, entre tantas jovens casadoiras, as mais desejadas. Do corpo inteiramente coberto da mulher o que sobrava eram as extremidades. Mãos e pés eram os que mais atraiam olhares e atenções masculinas. Grandes romances do século XIX como A pata da gazela ou A mão e a luva revelam, em metáforas, o caráter erótico dessas partes do corpo. Mãos tinham que ser longas e possuidoras de dedos finos acabando em unhas arredondadas e transparentes. Não apenas os dedos eram alvo de interesse, mas seu toque ou os gestos daí derivados eram revelador da pudicícia de uma mulher. O ideal é que os dedos estivessem sempre , no limite do nojo ou da repugnância por qualquer contato físico. 

Pequenos, os pés tinham que ser finos, terminando em ponta; a ponta era a linha de mais alta tensão sensual. “Faire petit pied”, era uma exigência nos salões franceses; as carnes e os ossos dobrados e amoldados às dimensões do sapato deviam revelar a pertença a um determinado grupo social, grupo no interior do qual, as mulheres pouco saiam, pouco caminhavam e, portanto, pouco tinham em comum com escravas ou trabalhadoras do campo ou da cidade, donas de pés grandes e largos. Os pés pequenos, finos e de boa curvatura eram modelados pela vida de ócio, era emblema de “uma raça”, expressão anatômica do sangue puro, sem mancha de raça infecta como se dizia no século XVIII. Circunscrita, cuidadosamente embrulhada no tecido do sapato, essa região significou, muitas vezes, o primeiro passo na conquista amorosa. Enquanto o príncipe do conto de fadas europeu curvava-se ao sapatinho de cristal da Borralheira, entre nós, os namoros começavam como já vimos, por uma “pisadela”, forma de pressionar ou de deixar marcas em lugar tão ambicionado pelos homens. Tirar gentilmente o chinelo ou descalçar a “mule” era o início de um ritual no qual o sedutor podia ter uma vista do longo percurso a conquistar. Conquista que tinha seu ponto alto na “bolina dos pés”, afagos que se trocavam nesta zona altamente sensível.

Apesar dos espaços de encontros terem se multiplicado, embora jovens pudessem se encontrar, trocar emoções e mesmo “namorar”, - palavra que não tinha na época o mesmo sentido que lhe emprestamos mais tarde, - na hora de casar, as razões passavam longe do coração. Em 1887, Maurício Lamberg enfatizava o exagerado puritanismo da brasileira, como ele nunca vira em outro lugar. Um puritanismo ostentado como medalha de bom comportamento, sobretudo às vésperas do casório.  E explicava: “Por exemplo, a nenhuma moça é permitido caminhar na rua sem ir acompanhada por um parente muito próximo. Não a pode acompanhar o próprio noivo”.

            Eles pautavam sua forma de vestir e de se comportar pelos paradigmas britânicos. Elegância? Só à inglesa. Afinal, os comerciantes da Velha Álbion dominavam a venda de tecidos masculinos nas principais praças. Dificilmente se tornavam alfaiates, como os franceses. Com a Revolução Industrial, os trajes masculinos se tornaram mais despojados e austeros, deixando de lado os ornamentos e bordados, as joias e as cores vivas, típicas da vida nas Cortes europeias – explica a historiadora Márcia Pinna Raspanti. O campo era a inspiração para os trajes masculinos, já que a aristocracia inglesa tinha grande apreço pelos esportes e hábitos campestres. Os hábitos burgueses impactaram a moda e os homens passaram a associar a elegância a uma postura mais séria e discreta, deixando o mundo da futilidade e da ostentação para as mulheres.

            O uso de joias era moderado, restringindo-se aos alfinetes de gravata, anéis, apetrechos de fumo em prata e relógio de bolso. O terno com paletó mais curto só chegaria ao Brasil no final do século, substituindo as casacas compridas. Os senhores de engenho do Nordeste exibiam casaca e colete escuros, de alpaca ou lã, calças claras ou escuras com vincos laterais, de flanela, feltro ou linho. Gravatas e chapéu preto de copa dura eram obrigatórios. As barbas tinham que estar aparadas e os cabelos, em geral, tratados com brilhantina. No rosto usavam-se “felpas de pera”, ou pequeno cavanhaque no queixo. A julgar pelo exemplo de Félix de Cavalcanti de Albuquerque, homens de certo nível não saíam a rua sem o croisé ou a sobrecasaca preta. As roupas de maior luxo eram feitas em alfaiate. No Recife, o da “Casa Imperial”, ou o Pavão, na Rua da Imperatriz. Gravatas de seda e camisas de linho podiam ser compradas em armazéns de fazendas inglesas. Nos pés, botinas pretas. Ninguém sem guarda-chuva, nem o Imperador D. Pedro II, símbolo de autoridade mais burguesa do que aristocrática. Ele, aliás, sempre vestido de sobrecasaca e cartola pretas, representava a gravidade e a solenidade que caracterizavam o Segundo Reinado.

Segundo a mesma autora, os artistas, principalmente fotógrafos e pintores, suavam gravatas de seda largas com nó desleixado, casaco de transpasse alto e gola curta. Já os professores de Direito eram reconhecidos por suas sobrecasacas negras e capas sem mangas – as opas -, típicas das várias confrarias. Havia também os trajes regionais. Os sertanejos costumavam trajar chapéu de couro, gibão, guarda-peitos, perneiras, luvas e peia-boi; o gaúcho tinha visual semelhante com o acréscimo do poncho. Nas áreas rurais, em casas-grandes ou fazendas de café era costume oferecer aos convidados um casaco leve de linho, seda ou alpaca, para substituir os casacos de cores escuras e tecidos mais pesados durante as refeições. O que os deixava mais confortáveis. O transporte por via férrea trouxe uma contribuição interessante para o vestuário masculino: os ingleses introduziram o guarda-pó branco, de algodão ou linho, usado nas viagens de trem. Na segunda metade do século XIX, o artigo se tornou moda entre os abastados que circulavam nos vagões. O robe de chambre, de veludo colorido e brocados, também tiveram alguma penetração no Brasil entre os mais ricos.

Durante o século XIX, diz Márcia Raspanti, o costume de demonstrar a posição social por meio do vestuário e pequenas ostentações fazia parte da sociedade. Aluísio de Azevedo, em O Cortiço, descreve com deliciosa ironia o esforço necessário para que um homem de origem mais humilde fosse aceito entre a elite. A transformação de João Romão, dono de um cortiço e de rudes maneiras, em um distinto burguês, demonstra que apenas amealhar fortuna não era suficiente para obter ascensão social:

“Mandou fazer boas roupas e aos domingos refestelava-se de casaco branco e de meias, assentado defronte da venda, a ler jornais. Depois deu para sair a passeio, vestido de casimira, calçado e de gravata. Deixou de tosquiar o cabelo á escovinha; pôs a barba abaixo, conservando apenas o bigode, que ele agora tratava com brilhantina todas as vezes que ia ao barbeiro. Não era mais o mesmo lambuzão! E não parou por aí; fez-se sócio de um club de dança e, duas noites por semana, ia aprender a dançar; começou a usar relógio e cadeia de ouro”.

Já o tipógrafo Porfiro, outro personagem da cidade, esse um mulato mais velho e dono de cabeleira encarapinhada, “não dispensava sua gravata de cor, saltando em laço frouxo sobre o peito da camisa; fazia questão de sua bengalinha com cabeça de prata e de sua piteira de âmbar e espuma, em que ele equilibrava um cigarro de palha”.


Por Mary Del Priore

Trecho extraído Livro Histórias da Gente Brasileira, editora Leya.

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