A próxima revolução

por Adriana L. Dutra





A religião hebraica existe há 5770 anos, a budista e a confuciana há 2.500, a cristã há 2018, a islâmica, a mais jovem de todas estas religiões, há cerca de 1400. Em nenhum destes modelos religiosos e culturais a mulher existiu, somente como ventre sagrado ou prostituta.

Na Grécia antiga, onde a criação do belo, das artes e do intelecto se construiu, a condição feminina era completamente subalterna em relação ao homem. Nas tragédias e comedias gregas, encenadas para multidões em lindos anfiteatros, os homens gregos faziam o papel feminino. Na Idade média, diga-se durante 10 séculos de nossa história, a mulher foi quase dizimada como bruxa, louca ou devassa. No renascimento, idade da luz dos tempos, as mulheres mais uma vez não se destacaram, continuavam submissas e excluídas de qualquer participação na sociedade.


O direito ao voto aconteceu recentemente. A suíça concedeu o direito ao voto feminino em 1971. Na Nova Zelândia em 1893, na Russia em 1917, na Turquia 1923, na Inglaterra em 1928, no Brasil em 1932, França em 1944, Japão em 1945, Itália 1946, Israel 1984, quando formou-se o Estado.


Ainda hoje, no Islamismo, população que representa um quarto do planeta, a mulher não pode ter participação produtiva, não podem ter iniciativa, até mesmo a liberdade de ir e vir não está sob seu controle. Mulheres só podem casar com um homem, enquanto seu parceiro pode ter quatro esposas. O marido pode deixar a mulher quando quiser, mas a mulher só pode deixa-lo em situação específica. O adultério feminino é punido com apedrejamento público, enterro com vida.

No mundo árabe, o pai podia, até muito pouco tempo atrás, também enterrar suas filhas vivas, quando indesejadas. Na Itália , até 1985 os maridos podiam matar suas esposas, em nome de sua honra. Hoje, em aldeias da África, mulheres tem seus órgãos genitais mutilados para que não possam, jamais, sentir prazer. O estupro coletivo ainda é uma prática na Índia e em tantos diversos países.


Na sociedade contemporânea, mulheres são assasinadas por seus maridos, normalmente por espancamento, por todo e qualquer motivo. O honorário feminino é inferior em relação ao género masculino, mesmo que a mulher exerça a mesma função ou cargo com a mesma jornada de trabalho.


Sim, estamos avançando. Mas não fazemos parte da história, do pensamento e da construção das sociedades. Não estamos na Bíblia, no Torá, no Corão, nos livros de história, onde as mulheres são mencionadas somente como ” heroínas” , mães, loucas, santas.

Existem muitas castrações e regras subjetivas para as mulheres que o gênero masculino não vivencia. Perseveram ainda hoje as tradições do “não pode”. Mulheres não podem porquê não podem. Não podem sentar a vontade, não podem vestir o que desejam, não podem ter uma vida sexual descomprometida , não podem simplesmente ser. Vivemos diante de uma ingenuidade sexofóbica num inconsciente coletivo baseado no machismo, uma patologia mundial. Mas mesmo assim, diante toda a impossibilidade de oportunidades, muitas de nós não se curvaram , lutaram e se tornaram referência, sua maioria lutando pela liberdade de todas as mulheres.


Os fatos são os fatos e diante deles qualquer palavra que represente uma ação contraria a infeliz história que as mulheres não conseguiram jamais construir é valida. Seja empoderamento, seja feminismo, seja o que for. Algum movimento há de existir e perdurar, caso contrário, continuaremos a assistir a morte de muitas mulheres por aí, diariamente.

Empoderamento sim.


Por Adriana L. Dutra


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