Berna Reale, a simbiose entre a arte e a perícia criminal



Numa tarde de domingo no mercado Ver-O-Peso, em Belém do Pará, uma mulher montou uma mesa, forrou com uma toalha branca de rendas, despiu-se por completo, deitou-se e colocou carne crua em cima do corpo. Passou a tarde inteira ali, imóvel. Ao redor, urubus, atraídos pela carne, e olhares curiosos. Hoje, esta performance da artista Berna Reale, denominada Quando todos calam, é uma referência quando se fala dos seus trabalhos na arte. Fora dela, Berna é perita criminal da Polícia de Belém, onde vive.



Suas duas funções – artista e perita — são simbióticas. Formada em Educação Artística, Berna trabalhou por mais de 20 anos em uma fundação cultural em Belém, onde fazia produção de exposições e criava suas obras, baseadas em fotografias e instalações. Ali, recebeu um convite do curador Paulo Herkenhoff para pensar em um trabalho dentro do mercado de carnes da capital paraense. “Passei oito meses dentro do departamento de necrópsia da polícia fotografando vísceras humanas e cadáveres”, conta ela. Durante esse tempo, foi aberto concurso para a academia de polícia. As fotos das vísceras humanas foram expostas no mercado e Berna virou perita. “Precisava ganhar mais dinheiro”, diz Berna Reale, às vésperas da abertura da exposição Vão, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em São Paulo, que fica em cartaz entre os dias 15 de julho e 28 de agosto.



Berna Reale posa para foto em São Paulo. FERNANDO CAVALCANTI



Foi dentro da academia de polícia que ela começou a ter vontade de “estar presente no trabalho”, que até então não incluía performances. “Uma coisa que me chamou muito a atenção na academia de polícia foi a punição dada aos policiais lá dentro”, conta. “Eles eram submetidos a alguns exercícios exaustivos de polichinelo ou agachamento, onde todos ficavam ao redor, presenciando. "Aquela cena humilhante me chamou muito a atenção como artista".


Suas observações como perita a levou longe como artista. Em 2015, ela foi uma das representantes brasileiras da Bienal de Veneza. Naquele mesmo ano, ela expôs no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo a instalação A última festa. Em uma sala inteira forrada com papelão e iluminada com luzes vermelhas, tocava um som alto que misturava música de boate com sirenes e denúncias de violência que as pessoas fizeram à polícia por telefone. Em algumas mesas, bandejas cheias de suspiro. O público se dividia entre os que dançavam ao som da música, comiam o suspiro e os que entendiam - ou não - a obra. "As pessoas entravam e ficavam dançando, até perceber que o som era de violência", conta ela.



Obra 'Cantando na chuva'. CORTESIA BERNA REALE E GALERIA NARA ROESLER



Ela explica que o papelão era referência àquele usado para cobrir corpos quando há uma vítima fatal na cena do crime. O suspiro é doce e dá prazer, segundo ela, e faz alusão ao último suspiro antes da morte. "Meu trabalho é sobre como a violência se torna uma coisa aceitável, compartilhada, naturalizada", diz. As pessoas têm um prazer mórbido com uma notícia desagradável, elas compartilham, querem ver".


Para manter a violência muito presente, suas obras são, muitas vezes, rústicas, repletas de elementos mórbidos, como as vísceras e ossos humanos. Não são feitas de sutilezas. Causam impacto sem necessitar de um trabalho intelectual prévio do público, algo cada vez mais necessário na compreensão da arte contemporânea. “Minhas obras são diretas”, define. “Meu trabalho não tenta ter uma linguagem sofisticada porque ele não tenta conquistar a classe artística ou o meio intelectual”, diz, sem nenhuma arrogância. “Eu fico muito mais feliz se tiver gente comum vendo meu trabalho. Não faço a mínima questão de o meu trabalho ser intelectualizado, dele falar de algo com códigos extremamente sofisticados ou específicos que só uma parte da sociedade entende”.


Por isso, ela já dançou Cantando na chuva sobre um tapete vermelho estirado em pleno lixão, toda vestida de dourado. Remou um barco cheio de ratos e correu com uma tocha olímpica pelos corredores de uma penitenciária. Nua, foi carregada pelas ruas de Belém amarrada numa vara, recém-saída de um carro frigorífico, como um boi morto. Os trabalhos não precisam de uma grande elaboração para causar impacto.




Leia a matéria completa em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/13/cultura/1499967146_171656.html

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